Coisas
Eu acho que coisas são importantes. Não acho que seja fútil. Não acho que seja materialista. Eu acho que algumas coisas são mais do que só coisas. Elas têm histórias pra contar, coisas pra falar. Elas têm valor emocional. As coisas são ligadas com os sentidos, elas podem ser tocadas, cheiradas, às vezes escutadas… Você interage com as coisas, e elas mudam você. Elas podem mudar uma ação só, pequena, ou então toda uma rotina. Algumas coisas te acompanham, outras só aparecem uma vez e são guardadas na memória. Acho que isso é o mais importante sobre as coisas: elas guardam memórias.
Tenho uma caixinha de música que toca o tema de A Noviça Rebelde. Mas não é aquele tema que as criancinhas cantam correndo não, é aquele que a noviça canta na cama sobre as coisas favoritas dela, sabe? Quando as criancinhas ficam com medo dos raios e vão lá dormir com ela? A caixinha que eu tenho toca essa música. Ela é tipo um bauzinho de brinquedos, lotado de coisinhas dentro. Tem até um carrossel que gira e um cavalo de pau que é a alavanca que liga. Hoje em dia ela ta toda quebrada. Os bichinhos do carrossel têm partes do corpo faltando, o cavalo ta emperrado, e ta tudo empoeirado. É um pouco triste, mas é como a minha infância. Ficou guardadinha em mim, pegando poeira, antiga. Outro dia peguei a caixinha e dei corda. Empurrei o cavalinho de pau pra um lado e pro outro. Nada. Dei mais corda, fui até o limite. Nada. Quebrou a caixinha. Minha infância não toca mais.
Aí ninguém entende o porquê de eu ter ficado chateada com o meu pai hoje. Tem um capacete de futebol americano autografado por um jogador dos Giants (o time para o qual torcemos) que sempre ficou na prateleira da minha sala. Desde que eu me lembro esse capacete ficou na sala, em todos os 3 apartamentos nos quais morei. É uma das poucas coisas que não mudaram de um apartamento pra outro. É muito louco isso. Às vezes quando eu não estou em casa, ou quando eu viajo, eu estou pensando em algo relacionado à minha casa e eu não consigo lembrar como ela é por nada. A única casa da qual consigo lembrar é a primeira que eu morei, a casa na qual nasci. Já fiquei mais de 10 minutos tentando lembrar como é meu quarto atual, ou o que eu tive antes, mas tudo que consigo lembrar é a minha primeira casa. Acho que foi a única casa na qual morei que eu realmente considerei como sendo a minha casa, home. Eu lembro direitinho desse capacete na estante da sala daquela casa. Ficava do lado esquerdo de cima da televisão.
Eu também lembro direitinho do meu pai vendo futebol americano na TV tarde da noite. Provavelmente eram só 11 horas, mas eu era pequena e pra mim, 11 era tarde. Aí eu não conseguia dormir e deitava no colo do meu pai, ouvindo a voz marcante do Paulo Antunes narrando o jogo na ESPN. Lembro bem do sentimento de segurança que aquilo me dava, o colo do meu pai, o jogo que parecia que nunca ia acabar, a prospectiva de uma vida eternamente longa. Até hoje quando eu tenho medo, quando me sinto sozinha, vou ver futebol americano com o meu pai. Às vezes ta tarde demais, ele já foi dormir, e eu boto na minha TV os jogos dos Giants antigos que tenho gravado. Me deixa mais calma. Sempre.
Hoje quando meu pai deu o capacete dos Giants pro meu primo de 7 anos levar pra casa eu tive vontade de chorar. Era um pedacinho de uma memória que eu tinha da parte mais simples e feliz da minha pequena vida. A maior parte desse trecho da minha vida já morreu, já esfarelou, a caixinha de música quebrou. O capacete era um dos últimos restinhos do colo do meu pai quando 11 da noite era tarde. Era um pouquinho de segurança, de carinho, era um pouquinho da lembrança do que era se sentir verdadeiramente em casa. Fiquei de luto pelo capacete quando o assisti passar pro outro lado da porta nas mãos de um pirralhinho sem noção, que vai jogar a minha memória no canto do quarto e acertar ela com uma bola de futebol sem querer às vezes, como outra coisa qualquer. Aquele capacete, pra mim, não era só uma coisa. Era uma coisa com um valor maior que muitas outras coisas, um valor que eu nunca tinha explicado pra ninguém. Era um valor que eu só descobri que ela tinha quando a vi ir embora pra não voltar mais.
Talvez eu seja muito dramática. Mas sabe o que é? É que eu tenho uma memória horrível. Eu não lembro nomes, não lembro rostos. Eu não lembro coisas importantes. Ainda mais inexplicavelmente, eu não consigo lembrar coisas que eu quero lembrar. Eu muitas vezes não consigo reconstruir memórias que pra mim foram importantes na minha cabeça para poder, de certa forma, revivê-las. O que me ajuda as vezes são estímulos, pequenos pedaços que sobraram, fotos… Acho que a caixinha de música, o capacete, e ate uma bolinha com a qual eu brinquei no dia em que eu me mudei pela primeira vez, são esses estímulos. Sem eles eu vou perder, mesmo lutando muito para conseguir manter, um pedaço muito importante da minha vida: a minha infância. Essas coisas que fizeram parte das minhas melhores memórias viraram artefatos do meu passado. Elas são amuletos mágicos com poderes incríveis. Elas fazem parte de mim. Eu não sou materialista. Eu não sou fútil. Eu só sou um pouco perdida, medrosa. Eu só sinto nostalgia, saudade. Eu só… preciso da ajuda das coisas.
Ana Carolina Ourivio