December102011

Coisas

Eu acho que coisas são importantes. Não acho que seja fútil. Não acho que seja materialista. Eu acho que algumas coisas são mais do que só coisas. Elas têm histórias pra contar, coisas pra falar. Elas têm valor emocional. As coisas são ligadas com os sentidos, elas podem ser tocadas, cheiradas, às vezes escutadas… Você interage com as coisas, e elas mudam você. Elas podem mudar uma ação só, pequena, ou então toda uma rotina. Algumas coisas te acompanham, outras só aparecem uma vez e são guardadas na memória. Acho que isso é o mais importante sobre as coisas: elas guardam memórias.

Tenho uma caixinha de música que toca o tema de A Noviça Rebelde. Mas não é aquele tema que as criancinhas cantam correndo não, é aquele que a noviça canta na cama sobre as coisas favoritas dela, sabe? Quando as criancinhas ficam com medo dos raios e vão lá dormir com ela? A caixinha que eu tenho toca essa música. Ela é tipo um bauzinho de brinquedos, lotado de coisinhas dentro. Tem até um carrossel que gira e um cavalo de pau que é a alavanca que liga. Hoje em dia ela ta toda quebrada. Os bichinhos do carrossel têm partes do corpo faltando, o cavalo ta emperrado, e ta tudo empoeirado. É um pouco triste, mas é como a minha infância. Ficou guardadinha em mim, pegando poeira, antiga. Outro dia peguei a caixinha e dei corda. Empurrei o cavalinho de pau pra um lado e pro outro. Nada. Dei mais corda, fui até o limite. Nada. Quebrou a caixinha. Minha infância não toca mais.

Aí ninguém entende o porquê de eu ter ficado chateada com o meu pai hoje. Tem um capacete de futebol americano autografado por um jogador dos Giants (o time para o qual torcemos) que sempre ficou na prateleira da minha sala. Desde que eu me lembro esse capacete ficou na sala, em todos os 3 apartamentos nos quais morei. É uma das poucas coisas que não mudaram de um apartamento pra outro. É muito louco isso. Às vezes quando eu não estou em casa, ou quando eu viajo, eu estou pensando em algo relacionado à minha casa e eu não consigo lembrar como ela é por nada. A única casa da qual consigo lembrar é a primeira que eu morei, a casa na qual nasci. Já fiquei mais de 10 minutos tentando lembrar como é meu quarto atual, ou o que eu tive antes, mas tudo que consigo lembrar é a minha primeira casa. Acho que foi a única casa na qual morei que eu realmente considerei como sendo a minha casa, home. Eu lembro direitinho desse capacete na estante da sala daquela casa. Ficava do lado esquerdo de cima da televisão.

Eu também lembro direitinho do meu pai vendo futebol americano na TV tarde da noite. Provavelmente eram só 11 horas, mas eu era pequena e pra mim, 11 era tarde. Aí eu não conseguia dormir e deitava no colo do meu pai, ouvindo a voz marcante do Paulo Antunes narrando o jogo na ESPN. Lembro bem do sentimento de segurança que aquilo me dava, o colo do meu pai, o jogo que parecia que nunca ia acabar, a prospectiva de uma vida eternamente longa. Até hoje quando eu tenho medo, quando me sinto sozinha, vou ver futebol americano com o meu pai. Às vezes ta tarde demais, ele já foi dormir, e eu boto na minha TV os jogos dos Giants antigos que tenho gravado. Me deixa mais calma. Sempre.

Hoje quando meu pai deu o capacete dos Giants pro meu primo de 7 anos levar pra casa eu tive vontade de chorar. Era um pedacinho de uma memória que eu tinha da parte mais simples e feliz da minha pequena vida. A maior parte desse trecho da minha vida já morreu, já esfarelou, a caixinha de música quebrou. O capacete era um dos últimos restinhos do colo do meu pai quando 11 da noite era tarde. Era um pouquinho de segurança, de carinho, era um pouquinho da lembrança do que era se sentir verdadeiramente em casa. Fiquei de luto pelo capacete quando o assisti passar pro outro lado da porta nas mãos de um pirralhinho sem noção, que vai jogar a minha memória no canto do quarto e acertar ela com uma bola de futebol sem querer às vezes, como outra coisa qualquer. Aquele capacete, pra mim, não era só uma coisa. Era uma coisa com um valor maior que muitas outras coisas, um valor que eu nunca tinha explicado pra ninguém. Era um valor que eu só descobri que ela tinha quando a vi ir embora pra não voltar mais.

Talvez eu seja muito dramática. Mas sabe o que é? É que eu tenho uma memória horrível. Eu não lembro nomes, não lembro rostos. Eu não lembro coisas importantes. Ainda mais inexplicavelmente, eu não consigo lembrar coisas que eu quero lembrar. Eu muitas vezes não consigo reconstruir memórias que pra mim foram importantes na minha cabeça para poder, de certa forma, revivê-las. O que me ajuda as vezes são estímulos, pequenos pedaços que sobraram, fotos… Acho que a caixinha de música, o capacete, e ate uma bolinha com a qual eu brinquei no dia em que eu me mudei pela primeira vez, são esses estímulos. Sem eles eu vou perder, mesmo lutando muito para conseguir manter, um pedaço muito importante da minha vida: a minha infância. Essas coisas que fizeram parte das minhas melhores memórias viraram artefatos do meu passado. Elas são amuletos mágicos com poderes incríveis. Elas fazem parte de mim. Eu não sou materialista. Eu não sou fútil. Eu só sou um pouco perdida, medrosa. Eu só sinto nostalgia, saudade. Eu só… preciso da ajuda das coisas. 

Ana Carolina Ourivio

August282011

Prefácio da Minha Vida

Isso é tipo uma bossa, sei lá, que eu escrevi faz um booom tempo mas eu gosto dela :)

Eu devia ter jogado mais

Guardado palavras na boca pela primeira vez

Tentar entender o por quê de fazer o que fez

Eu devia ter levado mais

De tempo caminhando na rua a rir com você

Sem despejar tudo na mesa pra você ver

 

Mas se soubesse há quanto tempo te levo em mim

Lá no fundo da mente, nós batemos um papo sem fim

Já não me importava o final que você ia dar

Pode dar

 

Tentei te explicar

Sentada no banco assistindo a garotada jogar

Que enquanto ria eu corria pra não me jogar

E que quando te tinha em meus braços te tinha pra mim

Só pra mim

 

Pare, não ria se você não entendeu

Quando digo que doeu é porque doeu

Cansei de viver o prefácio da minha vida

Sem saber se a nossa história será escrita

Escrita

 

Eu devia ter enrolado mais

Te ganhado de pouco a pouco até tudo ser meu

Fingido pra você que meu sentimento não é meu

Mas entenda que era demais

Te ver enrolada em outros braços flertando comigo

Ao mesmo tempo que se declarava para aquele menino

 

Te assustei

Eu sei

 

Pare, não ria se você não entendeu

Quando digo que doeu é porque doeu

Cansei de viver o prefácio da minha vida

Sem saber se a nossa história será escrita

 

Pare, não ria se você não entendeu

Quando digo que doeu é porque doeu

Cansei de viver o prefácio da minha vida

Sem saber se a nossa história será escrita

June22011

Só eu e você na fazenda do Paraíso

Se o mundo fosse só eu e você, eu acordaria mais cedo e te deixaria dormindo. Eu vestiria o casaco por cima da blusa de algodão e caminharia pelo chão gelado. Iria abrir as portas de vidro pro jardim e chamar os cachorros, que já estariam por ali porque sabem que eu acordo cedo. Falaria com eles um por um, faria carinho, procuraria o gato, que estaria na cozinha me esperando ir fazer café. Eu o daria a ração que ele gosta pra fazer sua alegria, e depois faria um copo grande de leite fresco com Nescau, esquentaria ele no microondas, e levaria ele pra sala. Lá, eu sentaria de frente pra lareira e folhearia o jornal que peguei no chão da cozinha, a espera de você vir por trás e pôr suas mãos frias nos meus ombros. Abriria um sorriso com o baque abafado dos seus passos leves que antecipariam o nosso toque, para depois admirá-la em todo seu esplendor vestida apenas com um roupão fino de malha branca.

Com você, ficaria sentada no sofá sentido o quentinho gostoso do sol matinal entrar pelas portas de vidro junto da brisa da serra. Ficaria abraçada com você, conversando com você, matando as saudades de você que aquela porção de hora sem você haveriam de me proporcionar. Esperaria a fome te bater para te acompanhar para a cozinha onde você faria algo delicioso. Você me ofereceria e eu recusaria, mas pegaria um pedacinho mesmo assim por não resistir à tentação. Depois iríamos pra varanda escutar melhor os pássaros cujo canto esticava para dentro da casa. De lá, conseguiríamos ver o lago à direita, com o nosso pequeno galinheiro mais atrás. Do lado do lago, um quiosquezinho de vidro com telhado talhado onde ficaria sua mesa de desenho e suas tintas. Na esquerda, veríamos as árvores, um enorme gramado, as pedras onde sentaríamos para pegar sol, e acompanharíamos com os olhos o caminho que, de noite, era iluminado por postes, e que levava a humilde casa de hóspedes. À nossa frente, as árvores e o gramado estenderiam até a estradinha de terra que dava a volta na casa e passava por trás do estábulo até dar a volta no lago e, finalmente, encontrar o muro da fazenda: Paraíso.

Em volta, as árvores todas formariam um bosque claro onde cavalgaríamos alegremente apostando corrida e rindo a toa. Atravessaríamos as trilhas e subiríamos animadamente as lindas montanhas verdes do nosso extenso terreno, para depois ver a vista. Lá de cima, veríamos as nossas plantações de milho, o nosso gado gordo, e o boi separado na cerca nova que o caseiro construiu mês passado. Lá, você tiraria da bolsa da sela um bloco e um lápis, e desenharia a ampla paisagem com graça debaixo dos meus olhares apaixonados. Só então voltaríamos a montar, delinearíamos os animais todos e brincaríamos de dar a volta no lago, para depois sentar no deque e tirar os sapatos, mergulhando os pés doídos na água gélida. Deixaríamos o resto do corpo cair devagar para trás, ficando deitadas assistindo as nuvens voarem de um lado a outro. Depois, ao som dos cães correndo e brincando no fundo, você ficaria com frio nos pés, e eu os secaria com a manga do meu casaco, o bastante para você poder colocar seus tênis de volta e caminhar comigo até a casa.  

A casa, agora borbulhando com o movimento dos empregados que foram chegando, cheiraria a bolo branco que acabou de sair do forno. Entraríamos na cozinha para cumprimentar a negra baiana e o caseiro barbudo que, agora terminando o copo de café, voltaria a cuidar dos afazeres da serra enquanto eu e você nos distrairíamos na sala de TV. Lá, jogaríamos videogames antigos, ou talvez assistíssemos um dos muitos filmes enfileirados pelas prateleiras que emolduram a televisão. Jogadas no sofá, com as cortinas completamente fechadas, iluminadas apenas pela tela, ficaríamos juntinhas debaixo de uma mantinha felpuda e quentinha. Depois de algumas brincadeiras, teria você pra mim, e você me teria para si, talvez ali, talvez em outro lugar, no quarto, quem sabe.

De noite, acenderíamos a lareira e tiraríamos os palitinhos do armário de louça para torrar marshmallows no fogo ardente que nos aqueceria as mãos e a testa depois do jantar. Ficaríamos deitadas no sofá contando histórias, curiosidades, e rindo uma da outra até que nossos olhos começassem a arder e nossas costas a ficar doloridas de posições improvisadas. Só então faríamos a transição para a cama, onde dormiríamos nos braços uma da outra. Em dias cuja fazenda teria visitas, esse momento seria mais agitado. Neste dia, porém, seriamos só eu e você. Se o mundo fosse só eu e você…

May162011

Jardim

De novo eu sinto aquele vazio, aquele peso, amarrado no meu tornozelo me puxando pra baixo. O coração pula, não bate por um momento. Eu não respiro por um momento. Me ocorre a dúvida, me retraio, me amarro num abraço só meu.

Medo.

 

Porque ontem deitei e dormi, mas antes sorri boba pro teto ao som da chuva que pra mim só fazia lavar o passado, me livrar das incertezas e regar o broto que nasceu da semente que eu plantei naquele solo de cinzas.

Mas que paixão! Que alegria! Que vontade de viver que fazia tempo eu não sentia. No jardim onde antes eu expunha flores mortas, de luto, de pavor da idéia de seguir adiante, hoje eu encontro um cemitério. Hoje cavo com meus próprios dedos a terra molhada e planto as esperanças nas quais investi tanto carinho, carinho esse que antes eu nem tinha a força pra encontrar, em outro jardim. Eu visito esse jardim todo dia, não com buquês de cravos vermelho-sangue, mas com regadores cheios de ternura pelas flores que ali planto.  

Estou me apegando ao jardim. Tenho medo de amar o jardim.

Mentira.

Eu amo o jardim.

 

Medo.

 Se mais esse jardim me deixar na mão, não me abrir os braços com um convite de afeto, me retiro do ramo. Será? Será que me retiro? Minhas lágrimas, tantas, rolarão salgadas à terra e a farão ainda mais infértil. Se mais esse jardim morrer, não poderei fazer nada para trazê-lo de volta ao seu esplendor inicial, ao seu brilho jovem de coisa nova e cujos defeitos ainda estão enterrados debaixo do solo.

Se mais este jardim morrer, paro de plantar esperanças em paixões.

                                                                            - Carol Ourivio

March272011
5PM
2PM

“Ela”, e não “Você”, porque ela não vai nem ler.

CARALHO, EU NÃO AGUENTO MAIS CHORAR POR ELA.

Quero que tome controle logo, volte e me domine.

Quem se importa?

Quem se importa se por ela eu fizer de tudo?

E eu faço mesmo, juro.

 

Estou morrendo de raiva dessa filha da puta por ela não me amar.

Morrendo de raiva por ela me fazer beber vinho do gargalo antes mesmo de ficar escuro.

Morrendo ainda mais de raiva de mim mesma, por deixar ela me afetar assim

E sofrendo com o dilema de deixar ou não ela parar de me afetar

Porque me afetando eu sei que não terminou completamente

Não na minha cabeça

 

Me agarro nos resquícios

Me amarro nos vestígios

 

Segurando no seu tornozelo pra não deixá-la andar.

Nem pra frente,

Nem pra trás.

March252011

Texto baseado em “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada. Lá é igual ao Rio de Janeiro, só que não faz calor. Eu posso usar casaco e cachecol todo dia. Lá também não chove como aqui, onde as pessoas perdem a casa e a família por causa das águas. Em Pasárgada, a areia não gruda e o picolé não derrete, a gente pode comer ele todinho com calma. Em Pasárgada ainda pode vender queijo coalho na praia. Lá não tenho trabalhos de escola que demoram meses para terminar.

Vou-me embora pra Pasárgada, onde tem bom futuro quem merece, e não quem tem maior nota ou mais dinheiro. Lá, todo mundo tem dinheiro, porque o dinheiro está não mão da gente boa, e gente ruim lá não tem. Lá em Pasárgada, meu pai consegue andar, e até correr, igual a um homem no auge da sua juventude. Lá a minha mãe e o meu avô se amam, e meu irmão tem um emprego de muito prestígio que é motivo de orgulho.

Vou-me embora pra Pasárgada, onde ninguém bebe e ninguém trai. Em Pasárgada não tem drogas, porque todo mundo tem onda só por ser feliz. Lá, não tem preconceito algum, contra ninguém. Também não tem guerras porque não tem mesquinhez. Não tem doenças nem insetos e nem bichos venenosos. Em Pasárgada é Carnaval todo dia, porque todo dia tem música, todo dia tem alegria. Lá, só chora quem está feliz.

Vou-me embora pra Pasárgada. Lá a gente ouve falar de outros lugares onde coisas ruins acontecem e é assim que a gente aprende a dar valor pra o que a gente tem. Lá as amizades são reais e ninguém entende como pode um amigo trair a confiança do outro. Em Pasárgada tem tudo isso, mas tudo isso parece perfeito demais, chato demais e, portanto, vazio demais.

E é por isso que lá em Pasárgada eu tenho alguém. Porque de que adianta um céu estrelado, uma lua bonita, ou um pôr-do-sol cor-de-rosa sem ninguém pra abraçar? De que serve uma música de amor ou um filme romântico se eu não posso pensar em ninguém, se ninguém dança, escuta, ou assiste comigo? Em Pasárgada eu tenho um amor, um só amor, que eu achei e não largo nunca mais. Lá o meu amor sabe que é feliz comigo e só comigo, para todo o sempre.

Vou-me embora pra Pasárgada, e vou levar ele comigo.

March212011

Eu não sei se isso acontece com você…

Eu não sei se isso acontece com você, mas às vezes quando eu estou andando de carro, eu fico olhando as pessoas na rua e pensando que elas estão ali, vivendo suas vidas, completamente inconscientes aos meus problemas. Se elas ao menos soubessem… Mas aí, como se a minha própria mente me repreendesse, eu fico pensando que eles devem ter problemas também, sabe? Posso estar olhando pra alguém que perdeu um filho, alguém que não pode voltar pra casa, ou quem sabe não tem nem casa pra onde voltar. E eu estou aqui, reclamando dos meus problemas… Me da até um pouco de saudade, sabe? De quando eu andava de carro e era tão inocente que não podia nem imaginar todos aqueles possíveis problemas; não tinha nem problemas próprios pra começar. E agora eu ali, com aquele problema, e eu volto a pensar nele, e meu coração aperta, e eu volto a tentar me distrair olhando as pessoas na rua. Se elas ao menos soubessem…

E qual é o meu problema? Eu to apaixonada por você.

                                                                      - Carol Ourivio

6PM

Só De Vez Em Quando

De vez em quando eu ando

Nos mesmo corredores

Recordando amores com você

 

As vezes me encosto em cantos

E lembro dos encantos

Que eu vi em você

Só eu que vi em você (eu acho)

 

Quando passa alguém com seu perfume

Me envolvo numa nuvem

De você

 

De vez em quando eu ando

Nos mesmos passos, piso em falso

E caio em buracos mais uma vez

 

Não sei porque se da ao trabalho

De me dizer o que tem de errado

Eu sei

                             - Carol Ourivio

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